
General Médici
(Emílio Garrastazu Médici)
(30/10/1969 - 15/03/1974)
Ao assumir o poder, o terceiro general-presidente, Emílio Garrastazu Médici, estava disposto a consolidar o poder da "comunidade de informações", e a combater a esquerda utilizando as mesmas táticas da "guerra suja" (supostamente iniciada pelos "terroristas"). Assim sendo, o general deu início àquele que talvez tenha sido o período mais repressivo da história do Brasil.
O governo do General Emílio Garrastazu Médici foi, sem dúvida, o mais violento da fase ditatorial, pois, o Ato Institucional no 5 foi plenamente aplicado na sua gestão. A oposição, representada pelo MDB, foi totalmente amordaçada, os jornais, revistas, rádio e televisão sofreram violenta censura, impedindo que a população fosse informada do que estava acontecendo.
O fechamento da vida política brasileira, a inexistência de canais que permitissem fluir, sem problemas, as várias correntes de opinião do país, induziu alguns setores da esquerda a optarem pela luta armadas. Os escritos de Ernesto Che Guevara e de um jovem marxista francês, Régis Debray, foram amplamente divulgados. Surgiram então as primeiras organizações de guerrilha urbana.
Surgiram várias organizações, das quais podemos destacar a Vanguarda Armada Revolucionária Palmares (VAR-PALMARES), comandada por Carlos Lamarca, que resultou da fusão da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR) com o Comando de Liberação Nacional (COLINA). A experiência mais importante por ele comandada fez-se na VPR, ao tentar conflagrar a região do Vale do Ribeirão do Iguape, região paulista dominada por alto grau de pauperização. A Aliança Libertadora Nacional (ALN) foi dirigida inicialmente por Carlos Marighela e depois por Joaquim Câmara Ferreira, o "Velho", ambos mortos em São Paulo, em 1969, sendo que a prática de luta da ALN foi a Guerrilha Urbana. A outra organização era o Movimento 8 de outubro (MR-8) (Dia da Morte de Guevara na Bolívia).
Sequestros, assaltos a bancos e até "justiçamentos políticos" (execuções) foram atos comuns feitos pelos guerrilheiros.
Uma das famosas operações da Guerrilha Urbana no Brasil foi o sequestro do Embaixador Norte-Americano Charles Elbrick, pela ALN, que em troca da sua vida, exigia a soltura dos presos políticos, cuja lista de nomes fizera publicar pelos jornais.
A partir desse momento, o governo começou a investir grandes recursos no reaparelhamento das forças armadas, preparando-se para enfrentar a contestação revolucionária. Objetivando reforçar o poder da atuação militar foram reorganizados os Departamentos de Ordem Política e Social (DOPS) que era encarregado das ações policiais.
Nas forças armadas, tendo participação ativa a partir de 1970, foram instalados Centros de Operação de Defesa Interna (COD) que possui um corpo executivo, o Departamento de Operações Internas (DOI).
Ao mesmo tempo se desenvolveram os Centros de Informação das forças armadas, aumentando de forma assustadora a repressão política no Brasil. Muitos brasileiros foram para o exterior, fugindo da fúria dos golpistas, sendo que no Brasil aumentavam as torturas nas prisões. Assim, o governo brasileiro conseguia sufocar a oposição e ao mesmo tempo a euforia do chamado "Milagre Brasileiro", combinada com o clima de satisfação do povo com o futebol, que se sagrava tri-campeão no México, permitiu ao governo lançar uma campanha publicitária ufanista. O período Médici foi marcada, também, pela Doutrina da Segurança Nacional, importada dos EUA e o desenvolvimento industrial.
O apoio da Igreja ao Sindicalismo Rural representa uma mudança no comportamento do clero diante dos acontecimentos no Brasil, mais tarde, o Pape Paulo VI expressava a sua simpatia pelos oprimidos do Vietnã e do Brasil, demonstrando que à Roma já havia chegado informes sobre as violências contra fiéis, religiosos e dignatários da Igreja.
Seu governo se transformaria também num dos períodos mais esquizofrênicos na vida da nação: oficialmente tudo ia às mil maravilhas - o Brasil era o "país grande" que ninguém segurava, o "país que vai pra frente", também era tempo do "milagre econômico" e do famoso conselho "ame-o ou deixe-o". Enquanto isso, nos porões da ditadura, havia tortura, repressão e morte
Paralelamente, assiste-se a um crescimento econômico, o "milagre brasileiro". A elevação dos índices de crescimento, pela primeira vez o PIB (Produto Interno Bruto) alcançava a casa dos 10% a. a.
O Presidente Médici pregava a idéia de que o "Brasil era o País do Futuro".
De 1969 a 1973, de fato houve um extraordinário crescimento
econômico no país, aliado a baixos índices de inflação (18% ao nao). O PIB
cresceu na espantosa média anual de 11% (chegando a 13% em 1973). Houve uma
febre de investimento, grandes obras (muitas delas faraônicas e desnecessárias)
a causar impacto (Transamazônica, Ponte Rio-Niterói, Itaipu, etc) foram feitas e
assim a dívida externa ia crescendo, e muito dinheiro vindo do Exterior, com
juros baixos. O ministro Delfim Netto foi o articulador-mor do "milagre".
O
próprio Médici acabou se tornando o melhor intérprete dessa incongruência ao
declarar, em uma de suas raríssimas entrevistas, que "o Brasil vai bem, mas o
povo vai mal". Ele fez o país retroceder aos tempos do Estado Novo, não apenas
pela utilização maciça da propaganda para promover o regime, como pelo fato de
ter feito do deputado Filinto Müller (o carrasco que servira Getúlio Vargas)
presidente do Congresso e chefe do partido do governo, a Arena. De todo o modo,
o Legislativo seria reduzido à condição de mero homologador das decisões do
Executivo.
Durante o período do gaúcho Médici, nunca houve tanta censura
à imprensa, tanto cerceamento das liberdades individuais e de pensamento. E
nunca se escutaram tão poucas críticas - a não ser quando espocavam os tiros
disparados pela guerrilha urbana e rural. Em outubro de 1972, Médici enterrou
outra vez as esperanças de redemocratização do país, promulgando a Emenda
Constitucional nº 2, modificando a carta outorgada pela Junta Militar, que
previa eleições diretas para os governos de Estado em outubro de 1974. Mas,
então, um grupo de generais "castelistas" concluiu que era hora de tentar
restituir um mínimo de normalidade constitucional à nação - e lançou Ernesto
Geisel como candidato à sucessão de Médici. As trevas começaram a se
dissipar