
Vice-Presidente,
José
Alencar
O
senador José Alencar (PL-MG), vice-presidente de Lula, eleito em 27/10/2002,
honra a tradição mineira da boa conversa em que as idéias fluem com
habilidade e as palavras se encadeiam de maneira quase didática -“não vá
dizer que eu sou pedagógico não, que acho pretensioso”, pede cheio de
cuidados.
Aos
70 anos, a voz grave e pausada de quem sabe usar a pontuação oral, é manejada
criteriosamente para prender o interlocutor. Mas nenhum dote de oratória
adiantaria se esse filho de Muriaé, interior de Minas Gerais, não fosse
portador de idéias e credenciais que o habilitam a criticar o presente e a
discutir o futuro com desenvoltura.
Zé
Alencar, como é chamado pelos amigos, entre eles Lula, orgulha-se de vir “do
nada”, como o seu companheiro de chapa. O nada em questão foi uma adolescência
e uma juventude de trabalho duro, que o impediram de avançar além do ensino
fundamental, mas que ensinaram, a valorizar a produção e a desconfiar da
riqueza nascida da especulação pura e simples do dinheiro. “Eu já praticava
responsabilidade fiscal aos 14 anos de idade”, orgulha-se sorridente o
senador. “Ganhava pouco como vendedor de uma loja de tecidos e tive que
negociar minha hospedagem, em Belo Horizonte. Morava num corredor da pensão.
Era o jeito para que a despesa não excedesse o salário”, recorda.
Dono
do maior complexo têxtil do país, a Coteminas -16 mil empregos, R$ 1,4 bi em
ativos e detentora de marcas famosas como a Artex, a Santista e a Calfat-- o
senador não rejeita uma expressão que hoje soa quase como heresia para boa
parte da elite, dos partidos e dos executivos do governo: desenvolvimento
nacional. “Claro que não somos xenófobos. Nacionalismo não é sinônimo de
xenofobia mas de interesse pelo país”, costuma explicar a quem questiona a
atualidade dessas idéias, num mundo dominado por capitais e interesses sem pátria.
Embora
demonstre simpatia equivalente pelo principal ideólogo do liberalismo econômico
no Brasil, o ex-ministro Roberto Campos, José Alencar não poupa elogios ao
economista que mais refletiu sobre o tema da construção nacional – Celso
Furtado. “Esse é um grande brasileiro”, observa. De alguma maneira, Alencar
repõe na agenda desta campanha, alguns temas e impasses que Furtado introduziu
no debate político brasileiro, mas que posteriormente foram abandonados - e,
segundo muitos, inviabilizados- pelas transformações no cenário mundial e a
crescente subordinação dos países aos capitais especulativos.
Fortalecer
mecanismos endógenos de decisão; homogeneizar o acesso da sociedade à riqueza
e assegurar um desenvolvimento mais equilibrado para todo o território --grosso
modo, esse é o resumo do pensamento que orientou a obra de Celso Furtado. Num
certo sentido é, também, o tema subjacente ao discurso do vice-presidente de
Lula nesta campanha. Economista e senador não ignoram porém os poderosos obstáculos
surgidos nas últimas décadas à consecução desses objetivos. A integração
dos sistemas financeiros internacionais e a perda de controle dos bancos
centrais sobre as moedas, tornaram quase anacrônica a idéia de soberania
nacional. O novo cenário coloca na ordem do dia uma interrogação incômoda.
Queiram ou não, todos os candidatos destas eleições terão que enfrentá-la
em algum momento, em voz alta ou em silêncio: Para que serve um país na era da
globalização? Ou como preferia o próprio Furtado: Qual o futuro de áreas em
que o processo de formação do Estado nacional se interrompeu precocemente? Tão
contundente quanto elas é a pergunta que, de maneira mais insistente, tem sido
dirigida ao senador mineiro desde que manifestou sua simpatia pelo candidato do
PT: Por que um empresário rico e bem sucedido apóia um operário para dirigir
o Brasil? De certa forma, as três interrogações guardam importantes conexões
entre si e José Alencar não se recusa a abordá-las.
(FONTE:
http://www.lula.org.br/)
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